I THOUGHT I WAS STARTING A BRAND
Comecei há quatro anos a minha carreira de empreendedora e estou a escrever este primeiro artigo do sofá, com os miúdos a dormir, a casa finalmente em silêncio e a sensação bastante familiar de que o meu dia começou outra vez às dez da noite.
É, provavelmente, a forma mais honesta de inaugurar o That’s COOL. Não me vou apresentar como escritora porque tenho demasiado respeito por quem sabe realmente escrever. Digamos antes que decidi acrescentar “editora” à lista de funções que desempenho sem qualquer formação específica. Felizmente, essa lista já é bastante longa. Há quatro anos também não sabia ser CEO. Nem comprar tecidos, negociar preços, fazer previsões de vendas ou perceber particularmente de margens, logística, Shopify, performance marketing, fitting, cash flow ou da quantidade surpreendente de problemas que podem existir dentro de uma coisa aparentemente tão simples como um botão. Sabia contar histórias. E, olhando para trás, talvez tenha sido suficiente para começar.
Durante 20 anos fui locutora de rádio. Aprendi a contar histórias, a encontrar o detalhe que faz alguém prestar atenção e, sobretudo, a perceber que ninguém quer sentir que está a ouvir uma marca ou uma empresa. Quer sentir que está a ouvir alguém. Foi com essa bagagem que nasceu a Favorite People. Não nasceu de um business plan brilhante nem de uma análise particularmente sofisticada do mercado. Nasceu de uma jardineira. E de uma ideia que, como acontece frequentemente com as ideias, parecia bastante mais simples dentro da minha cabeça.
EXPECTATION Criar uma marca. Desenhar coisas giras. Escolher tecidos. Fazer campanhas. Ver pessoas na rua com roupa que nós tínhamos imaginado. Talvez abrir umas lojas. Viajar. Ter ideias. REALITY Excel. Muitos Excels. Um fornecedor que devia ter entregue ontem. Uma campanha que não performou. Uma peça maravilhosa que ninguém comprou. Outra que quase não íamos produzir e esgotou. Uma mensagem que começa por “Rita, temos um pequeno problema”.
E descobrir que, no mundo empresarial, a expressão “pequeno problema” merece sempre toda a nossa atenção.
A verdade é que eu achava que estava a criar uma marca de roupa. Estava, sem saber, a criar uma empresa. E são duas coisas completamente diferentes. Uma marca vive de ideias, desejo, produto, criatividade e emoção.
Uma empresa precisa de salários pagos no final do mês, stock que rode, margens que façam sentido, equipas que funcionem, clientes satisfeitos, fornecedores pagos e dinheiro suficiente no banco para podermos continuar a ter ideias no mês seguinte.
Criatividade sem negócio é um hobby. Negócio sem criatividade, pelo menos para mim, seria profundamente aborrecido. O desafio é fazer os dois coexistirem.
Emma Grede diz: “My job is all about making decisions.” Parece pouco glamoroso. É absolutamente verdade. Ser empreendedora é passar uma quantidade absurda do dia a decidir. Produzimos? Contratamos? Esperamos? Abrimos esta loja? Entramos neste mercado? Esta campanha está suficientemente boa? Mandamos tudo para trás e começamos outra vez?
Há decisões em que tens dados. Há outras em que tens experiência. E depois existem aquelas em que tens uma folha de Excel, três opiniões contraditórias, vinte minutos e um feeling. Escolhes. E continuas. No início achei que, com o tempo, ficaria mais fácil. Que um dia acordaria e pensaria: pronto, agora já sei fazer isto. Ainda estou à espera.
O negócio cresce e os problemas crescem com ele. Primeiro preocupamo-nos em conseguir cem clientes. Depois mil. Depois em mantê-los. Depois em perceber porque compraram, se vão voltar e quanto nos custou trazê los até nós. A escala muda.A insegurança não desaparece necessariamente. Só fica mais bem vestida.
Também imaginava que ser dona da minha própria empresa me daria uma enorme sensação de liberdade. Tecnicamente dá. Posso escolher trabalhar a qualquer hora. Acontece apenas que escolho quase todas. Posso tirar férias quando quiser. Também posso responder a fornecedores numa praia. Posso não ter chefe.
Em compensação tenho funcionários, clientes, bancos, contabilistas, senhorios, parceiros, deadlines e três filhos.
Às vezes ser um chefe parece me uma solução bastante descansada. Mas há uma parte disto tudo que continua a ser extraordinária: construir qualquer coisa que ontem não existia.
Ter uma ideia numa terça feira à noite e, meses depois, vê la numa montra. Contratar pessoas melhores do que nós em determinadas áreas. Ver uma pessoa na rua com umas jardineiras Favorite People sem saber que estou atrás dela. Sim, faço isto. E sim, continuo a olhar.
Criar uma empresa também é um exercício permanente de ego e desapego. No início fazemos tudo porque não há mais ninguém para fazer. Depois temos de aprender exatamente o contrário: deixar outras pessoas fazer, deixar fazer diferente e perceber onde somos verdadeiramente importantes e onde somos apenas demasiado agarrados àquilo que criámos.
Continuo a trabalhar nessa parte. Talvez escreva sobre isso em 2034.
Há uma versão muito romantizada da vida de empreendedor. A pessoa com uma ideia genial, um computador aberto num café e uma empresa milionária três reels depois. Não conheço essa pessoa. A realidade que conheço é menos fotogénica. É acordar durante a noite porque te lembraste de uma coisa que não fizeste. É escrever ideias nas notas do telefone debaixo da mesa num jantar. É perceber que uma decisão tua afeta a vida de outras pessoas. É aprender que crescer custa dinheiro, que vender muito não significa necessariamente ganhar muito, que contratar é difícil e despedir é pior. É celebrar uma vitória durante aproximadamente quatro minutos antes de aparecer outro problema. É receber um email fantástico às 15h07 e outro que te estraga o dia às 15h11. É perceber que a mesma empresa consegue fazer te sentir genial e completamente incompetente dentro da mesma tarde. E voltar no dia seguinte. Talvez essa seja a parte mais importante. Voltar.
Há quatro anos, a Favorite People cabia no anexo da minha casa. Hoje há uma equipa, lojas, clientes em vários países, coleções, parceiros, fornecedores, problemas maiores, sonhos maiores e uma quantidade consideravelmente maior de Excel. Mas há uma coisa que não mudou. Continuo a acreditar que as marcas são feitas de pessoas. Pessoas que as criam, que trabalham nelas, que compram e que contam a outras pessoas. Talvez os grandes adeptos de AI discordem comigo. Mas, até onde consigo ver, as pessoas continuam no centro de tudo. Pelo menos as nossas favoritas. Foi também por isso que quis criar o That’s COOL. Não quero que seja apenas mais um sítio onde uma marca fala dos seus produtos. Quero que seja uma extensão do universo da Favorite People, mas também um bocadinho do meu.
Um lugar para falar de negócios, criatividade, pessoas, erros, viagens, ideias, coisas que descubro, coisas que ainda não percebi e provavelmente algumas opiniões que seria mais prudente guardar para mim. Uma espécie de versão editada das minhas notas do telemóvel. Digo editada porque ninguém merece ver aquilo tudo. Sou obsessiva com listas. Tenho listas de ideias, nomes, campanhas, restaurantes, livros, viagens, pessoas a quem preciso de ligar, coisas que quero mudar na empresa e coisas que provavelmente nunca vou fazer.
“Escrever o primeiro artigo do It’s Cool” estava no topo da lista desta semana. Portanto, e adoro esta sensação: ✓ feito. Só faltam os outros 147.
Até para o mês que vem,
Rita
I THOUGHT I WAS STARTING A BRAND
Comecei há quatro anos a minha carreira de empreendedora e estou a escrever este primeiro artigo do sofá, com os miúdos a dormir, a casa finalmente em silêncio e a sensação bastante familiar de que o meu dia começou outra vez às dez da noite.
É, provavelmente, a forma mais
honesta de inaugurar o That’s COOL.
Não me vou apresentar como escritora porque tenho demasiado respeito
por quem sabe realmente escrever. Digamos antes que decidi acrescentar
“editora” à lista de funções que desempenho sem qualquer formação
específica.
Felizmente, essa lista já é bastante longa.
Há quatro anos também não sabia ser CEO. Nem comprar tecidos,
negociar preços, fazer previsões de vendas ou perceber particularmente
de margens, logística, Shopify, performance marketing, fitting, cash flow
ou da quantidade surpreendente de problemas que podem existir dentro
de uma coisa aparentemente tão simples como um botão.
Sabia contar histórias. E, olhando para trás, talvez tenha sido suficiente
para começar.
Durante 20 anos fui locutora de rádio. Aprendi a contar histórias, a encontrar o detalhe que faz alguém prestar atenção e, sobretudo, a perceber que ninguém quer sentir que está a ouvir uma marca ou uma empresa. Quer sentir que está a ouvir alguém. Foi com essa bagagem que nasceu a Favorite People. Não nasceu de um business plan brilhante nem de uma análise particularmente sofisticada do mercado. Nasceu de uma jardineira. E de uma ideia que, como acontece frequentemente com as ideias, parecia bastante mais simples dentro da minha cabeça.
EXPECTATION
Criar uma marca. Desenhar coisas giras. Escolher tecidos. Fazer campanhas. Ver pessoas na rua com roupa que nós tínhamos imaginado. Talvez abrir umas lojas. Viajar. Ter ideias.
REALITY
Excel. Muitos Excels. Um fornecedor que devia ter entregue ontem. Uma campanha que não performou. Uma peça maravilhosa que ninguém comprou. Outra que quase não íamos produzir e esgotou. Uma mensagem que começa por “Rita, temos um pequeno problema”.
E descobrir que, no mundo empresarial, a expressão “pequeno problema” merece sempre toda a nossa atenção.
A verdade é que eu achava que estava a criar uma marca de roupa. Estava, sem saber, a criar uma empresa. E são duas coisas completamente diferentes. Uma marca vive de ideias, desejo, produto, criatividade e emoção. Uma empresa precisa de salários pagos no final do mês, stock que rode, margens que façam sentido, equipas que funcionem, clientes satisfeitos, fornecedores pagos e dinheiro suficiente no banco para podermos continuar a ter ideias no mês seguinte. Criatividade sem negócio é um hobby. Negócio sem criatividade, pelo menos para mim, seria profundamente aborrecido. O desafio é fazer os dois coexistirem. Emma Grede diz: “My job is all about making decisions.” Parece pouco glamoroso. É absolutamente verdade. Ser empreendedora é passar uma quantidade absurda do dia a decidir. Produzimos? Contratamos? Esperamos? Abrimos esta loja? Entramos neste mercado? Esta campanha está suficientemente boa? Mandamos tudo para trás e começamos outra vez? Há decisões em que tens dados. Há outras em que tens experiência. E depois existem aquelas em que tens uma folha de Excel, três opiniões contraditórias, vinte minutos e um feeling. Escolhes. E continuas. No início achei que, com o tempo, ficaria mais fácil. Que um dia acordaria e pensaria: pronto, agora já sei fazer isto. Ainda estou à espera.
O negócio cresce e os problemas crescem com ele. Primeiro preocupamo-nos em conseguir cem clientes. Depois mil. Depois em mantê-los. Depois em perceber porque compraram, se vão voltar e quanto nos custou trazê los até nós. A escala muda. A insegurança não desaparece necessariamente. Só fica mais bem vestida. Também imaginava que ser dona da minha própria empresa me daria uma enorme sensação de liberdade. Tecnicamente dá. Posso escolher trabalhar a qualquer hora. Acontece apenas que escolho quase todas. Posso tirar férias quando quiser. Também posso responder a fornecedores numa praia. Posso não ter chefe. Em compensação tenho funcionários, clientes, bancos, contabilistas, senhorios, parceiros, deadlines e três filhos.
Às vezes ser um chefe parece me uma solução bastante descansada.
Mas há uma parte disto tudo que continua a ser extraordinária: construir
qualquer coisa que ontem não existia.
Ter uma ideia numa terça feira à
noite e, meses depois, vê la numa montra. Contratar pessoas melhores do
que nós em determinadas áreas. Ver uma pessoa na rua com umas
jardineiras Favorite People sem saber que estou atrás dela.
Sim, faço isto. E sim, continuo a olhar.
Criar uma empresa também é um exercício permanente de ego e desapego. No início fazemos tudo porque não há mais ninguém para fazer. Depois temos de aprender exatamente o contrário: deixar outras pessoas fazer, deixar fazer diferente e perceber onde somos verdadeiramente importantes e onde somos apenas demasiado agarrados àquilo que criámos. Continuo a trabalhar nessa parte. Talvez escreva sobre isso em 2034.
Há uma versão muito romantizada da vida de empreendedor. A pessoa com uma ideia genial, um computador aberto num café e uma empresa milionária três reels depois. Não conheço essa pessoa. A realidade que conheço é menos fotogénica. É acordar durante a noite porque te lembraste de uma coisa que não fizeste. É escrever ideias nas notas do telefone debaixo da mesa num jantar. É perceber que uma decisão tua afeta a vida de outras pessoas. É aprender que crescer custa dinheiro, que vender muito não significa necessariamente ganhar muito, que contratar é difícil e despedir é pior. É celebrar uma vitória durante aproximadamente quatro minutos antes de aparecer outro problema. É receber um email fantástico às 15h07 e outro que te estraga o dia às 15h11. É perceber que a mesma empresa consegue fazer te sentir genial e completamente incompetente dentro da mesma tarde. E voltar no dia seguinte. Talvez essa seja a parte mais importante. Voltar.
Há quatro anos, a Favorite People cabia no anexo da minha casa. Hoje há uma equipa, lojas, clientes em vários países, coleções, parceiros, fornecedores, problemas maiores, sonhos maiores e uma quantidade consideravelmente maior de Excel. Mas há uma coisa que não mudou. Continuo a acreditar que as marcas são feitas de pessoas. Pessoas que as criam, que trabalham nelas, que compram e que contam a outras pessoas. Talvez os grandes adeptos de AI discordem comigo. Mas, até onde consigo ver, as pessoas continuam no centro de tudo. Pelo menos as nossas favoritas. Foi também por isso que quis criar o That’s COOL. Não quero que seja apenas mais um sítio onde uma marca fala dos seus produtos. Quero que seja uma extensão do universo da Favorite People, mas também um bocadinho do meu.
“Escrever o primeiro artigo do It’s Cool” estava no topo da lista desta semana. Portanto, e adoro esta sensação: ✓ feito. Só faltam os outros 147.
Até para o mês que vem,
Rita
